Backrooms: Um Não-Lugar bateu em mim. Quando a tela ficou acesa durante os créditos finais (sem cena pós-créditos, aliás) algumas ideias começaram a embaralhar na cabeça junto da certeza de ter assistido a um dos filmes mais estranhos que já pude sentir. E digo isso no sentido mais delicioso possível da expressão.

Afinal, aqui acompanhamos Clark (Chiwetel Ejiofor), um dono de loja de móveis vivendo um momento particularmente conturbado da vida pessoal, que acaba encontrando uma espécie de passagem para uma realidade inexplicável. É assim que o filme nos conduz por um intrincado universo de salas, corredores e objetos que despertam, ao mesmo tempo, curiosidade e desconforto. Existe algo profundamente angustiante no vazio desses espaços, como se o simples ato de existir ali já fosse errado.

Mesmo inspirado em uma famosa lenda de horror criada na internet, o diretor Kane Parsons constrói algo com identidade própria. Sim, o longa reverencia bastante sua origem digital, trazendo ecos da websérie desenvolvida pelo próprio Parsons, da estética de terror analógico e até da inclusão de “(Everyone knows it) Ulterior Motives”, a lost wave antes conhecida como “a música mais misteriosa da internet”.

São detalhes que funcionam como um abraço para quem acompanha essa mitologia online, mas também ampliam a sensação de mergulho em algo vindo das profundezas mais estranhas da internet.

Ainda assim, mesmo quem nunca ouviu falar das Backrooms deve encontrar aqui uma experiência poderosa. O filme entende perfeitamente a ficção cientifica de horror dos espaços liminares e consegue equilibrar suas propostas de maneira surpreendente, sendo ao mesmo tempo minimalista, visual e profundamente hipnótico.

Aliás, vale destacar como é estimulante ver um terror iluminado. Em vez de esconder tudo na escuridão, Backrooms faz das paredes pálidas, dos corredores vazios e da artificialidade do espaço suas principais armas de inquietação. E embora se passe nos em 1990, a ambientação nunca soa escrava da nostalgia. O período existe, mas sem virar uma brincadeira estética.

Caminhar pelas Backrooms é como explorar um mundo de casinha de bonecas, mas onde a construção têm textura, volume, presença.

E isso talvez seja uma das coisas mais fascinantes do filme. Em tempos de cenários digitais dominando o audiovisual, existe algo muito poderoso em perceber a materialidade daqueles ambientes, ainda que eles pareçam artificiais. Entre corredores infinitos e salas tortas, quando Clark explora estes espaços, existe uma contradição sensorial também repassada para quem assiste.

Há algo quase artificial naqueles espaços, como se fossem versões ligeiramente quebradas do mundo real, mas o contato físico dos personagens transmite uma dimensão tátil faz a nossa mente dar uma pequena bugada.

Quando mais perto do final, Backrooms amplia sua bizarrice diante da câmera, arranhando algo próximo do horror de criaturas não me soa um salto brusco de nível. Pelo contrário, isso parece um escalonamento natural daquilo que já vinha sendo construído.

E talvez seja justamente aí que o filme me ganhou de vez: Backrooms não é apenas um grande exercício de atmosfera. Existe uma história ali. Existe um drama. Conforme Clark acaba arrastando algumas das poucas pessoas próximas para dentro daquele labirinto impossível, o filme parece sugerir uma leitura sobre os “quartinhos dos fundos” das nossas próprias memórias espaços esquecidos, culpas antigas e coisas que insistimos em empurrar para longe.

Quais as sombras de rancor que se escondem na memória, ou se tornam monstros quando nos deixamos consumir pela angústia, abrindo espaço para pensamentos tortos e a sensação de vazio?

Mas, acima de tudo, é um filme pouco interessado em entregar todas respostas prontas. Existe uma sensação de jornada completa, de peças que se conectam, mas o desfecho ainda deixa espaço suficiente para fritarmos em teorias.

Porque durante a projeção você simplesmente se deixa levar pelas sensações. Mas, quando tudo termina, a vontade é quase imediata: rebobinar e revisitar aqueles corredores para procurar os detalhes que talvez tenham escapado nas pálidas paredes amarelas.

Backrooms: Um Não-Lugar é uma produção da A24, com distribuição brasileira da Imagem Filmes, nas versões dublado e legendado.

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