Quem domina o passado, possui a chave para moldar o futuro. E esse domínio se dá através do controle de como são contadas as histórias. Primeiro num sentido material, com domínio da língua e da escrita. Depois, com a forma com que são transmitidas as narrativas.

Isso poderia ser uma proposta de tese para discutir a comunicação em nossos tempos modernos, mas no caso é a base temática de Planeta dos Macacos: O Reino (Kingdom of the Planet of the Apes).

Surgindo diante de um deserto grandes produções em 2024, o filme tem a missão de ser a retomada da franquia agora é sobre os domínios da Disney. Serve como um Planeta dos Macacos 4 da atual cronologia, ou um soft reboot. Um novo começo.

Olhos atentos

Situada a 300 anos depois do capítulo anterior, a trama é conduzido pela jornada de Noa um jovem símio com olhos atentos para o mundo, mas que ele pouco conhece por tatear. Seus ouvidos para sociedade dos macacos, e a sua própria existência, são alimentados através das histórias contadas pelos seus anciões.

Assim, a estrutura da trama se orienta como uma história de amadurecimento (coming of age), com o garoto saindo de sua aldeia, sem pai nem mãe, e perder a inocência com as durezas que existem lá fora.

E com ele descobrimos o que existe agora neste (novo) Planeta dos Macacos.

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Searchlight Pictures

Memória é território de disputa

O Reino do título surge como elemento de crueldade, que diferente da trilogia anterior, também pode ser arquitetada pelos iguais.

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A busca de poder de Proximus e a violência sem remorso de Sylva preenchem o filme. Eles são os vilões para serem derrubados, e talvez compreendidos. Porém eles não são o grande conflito dessa história.

E talvez você tenha acreditado no que eu disse no primeiro parágrafo, e esteja esperando por mais respostas. Porém a verdade é que eu quem domino este texto também estou nessa espera.

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Proximus (Searchlight Pictures)

O domínio do discurso se torna o discurso de domínio no Reino de Proximus. Da mesma forma, se tornam o sonho de emancipação através dos ensinamentos de Raka.

É por este caminho que o legado de César, figura central da trilogia anterior, surge como o passado mítico em disputa. O que ele de fato viveu? Como o mundo ficou assim?

A disputa pela “verdade” surge como como elemento instigante da trama, criando sintonia e ansiedade por um debate sobre as fake news e as dissonâncias de um cada um ter uma “opinão sobre” alguém coisa no mar da internet.

Ainda mais instigante é a estruturação da disputa sobre os ensinamentos de César. Transformado em messias, o filme inicia o debate sobre o poder das religiões, seja como acalanto ou instrumento de autoridade.

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Noa e Raka (20th Century Studios)

Prove do fruto do conhecimento, mas você não pode saborear tudo agora. Afinal, com controla esse discurso e faz a mediação dessa história não sou eu quem agora reflito ou você quem está me lendo. Este poder pertence ao diretor, ao roteirista, e principalmente a grande empresa que decidiu que este capítulo é o inicio de uma nova trilogia, e você não pode saborear tudo agora.

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Desta forma, fica no imaginário o desejo de saber mais, o que vem depois. E isso pode ser uma farpa: Terminar um filme sem a saciedade de refeição completa.

E o que há de gostoso em Planeta dos Macacos: O Reino?

Fruto Amargo

Eu exercendo o poder que tenho sobre sua atenção no meu domínio que é esse texto, omiti alguns elementos para o final.

Na verdade, deixei para falar só agora como o verdadeiro elemento central dessa é Mae, também chamada de Nova. Surgindo como sorrateira companhia de jornada para o chimpanzé Noa, ela é a “humana um pouco mais inteligente que os demais”. O quanto inteligente? Esse é o ponto da narrativa.

Planeta dos Macacos O Reinado (Kingdom of the Planet of the Apes 2024 A Geleia
20th Century Studios

Mae descobre, observa, fragmenta e dissimula. Com uma pitada de spoilers, em momentos acompanhamos a trama ao seu lado, só para depois aprender que fomos deliciosamente enganados. Sabe aquela sensação de querer ver de novo?

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E eu não menti quando disse esta é uma fita é uma sobre amadurecimento. Infelizmente se tornar adulto é aprender a desconfiar. Porém experimentar para descobrir é o caminho da ciência.

Olhos que passeiam: De volta ao Planeta dos Macacos

E o que existe na experiência de sentar para assistir este Planeta dos Macacos de 2024? Dirigido por Wes Ball e assinado por Josh Friedman, este é um conto sobre um mundo de vazios, o que se reflete em paisagens destruídas após a guerra entre aqueles que poderiam caminhar juntos. Mas não existe deslumbramento. Ou talvez sim.

O que preenche nossos olhos é a busca pelo naturalismo. A opção minimalista privilegia paisagens onde quase todos personagens são feitos por computação gráfica e em cenas bem iluminadas.

Então é a experiência de um filme “bonito”. Com fotografia assinada por Gyula Pados, a tecnologia nos permite abstrair e saborear um panorama solar, onde macacos pescam, nadam, caminham, reagem com com decepção.

Assim o humano cria abstrações para refletir a existência. O poder de contar histórias.

Kingdom of the Planet of the Apes

Lançamento brasileiro, Disney
Ano: 2024
Duração: 145  minutos

Elenco principal: Owen Teague, Freya Allan, Kevin Durand, Peter Macon e William H. Macy
Classificação Indicativa: 14 anos

Assista ao trailer completo e dublado:

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